Como dar um novo significado aos acontecimentos passados?
Psicologia Comportamental 22/09/2016

Como dar um novo significado aos acontecimentos passados?

Miguel Lucas Publicado por Miguel Lucas

Todos nós provavelmente temos alguns acontecimentos da nossa vida que gostaríamos de ultrapassar, mudar, esquecer ou tentar que não interferissem de forma negativa na nossa vida. Decidi escrever este artigo na sequência dos comentários expressos por parte dos leitores no artigo: Como libertar-se das angústias do passado. Percebi que algumas pessoas sentem a necessidade de aprender estratégias psicológicas que possam ajudá-las a perceber como dar um novo significado a alguns acontecimentos incomodativos e/ou traumáticos.

As terapias, aconselhamentos ou programas de desenvolvimento pessoal, estabelecem uma forte relação com a aprendizagem. E, para aprender algo é necessário viver uma nova experiência ou dar um novo significado a algo que nos aconteceu ou que fizemos. Por outras palavras, é mudar algo.

Nova interpretação dos acontecimentos

Na prática da Terapia Cognitivo-comportamental conduz-se  a pessoa (cliente) a reviver os acontecimentos marcantes, perceber que tipo de emoções e sentimentos ficaram registados, e que impacto emocional teve e continua a ter no presente.

Quando a pessoa consegue entender as reações que teve, porque teve, e quais as circunstâncias que contribuíram para o impacto emocional registado, fica numa posição vantajosa para reinterpretar e implementar um nova forma de olhar para os acontecimentos e interpretá-los à luz de nova informação e numa situação segura e controlada (o momento presente).

Todos nós só existimos no presente. Somos constantemente bombardeados com informações sensoriais  vindas do ambiente externo, e algumas do nosso ambiente interno (pensamentos e crenças). A fim de dar sentido a essas informações, filtramo-las e armazenamo-las como uma representação interna ou mapa mental (formas de olhar o mundo). Qualquer acontecimento que não está sendo experimentado no momento atual é uma memória.

Quando nos sentimos incomodados, nos sentimos paralisados ou angustiados  é a memória de eventos passados que está causando um problema no presente. Especificamente, é a forma como a pessoa revive o evento passado durante o processo de lembrar que a angústia se faz sentir no presente.

Por exemplo, algumas pessoas relatam que alguns eventos da infância ainda causam problemas associados aos maus momentos vividos, provocando autoestima diminuída na idade adulta.

acontecimentos passados

Nova informação, novo significado

Na minha prática profissional tenho vindo a ajudar a alterar a história individual de algumas pessoas, permitindo que elas  reavaliem e façam alterações na memória de eventos passados. Além disso, a pessoa é capaz de fazer uso dos recursos atuais e dos conhecimentos que tem agora, mas não tinha acesso no momento que o evento ocorreu.

Então, não sendo possível mudar o que realmente aconteceu, é possível alterar o significado de eventos passados e, portanto, o efeito que isso tem sobre o comportamento de um indivíduo. É possível voltar no tempo com o conhecimento que você agora tem, rever e dar um novo significado para o evento original.

Durante o processo de mudança de significado dos acontecimentos, a pessoa é suportada na revivência das experiências, primeiro num estado dissociado (desapegado) e numa segunda fase num estado associado, com o auxílio de uma âncora (emoções, sentimentos e significado)  de recurso emparelhado. A âncora é cuidadosamente escolhida e construída pela  pessoa (cliente).

A âncora contém  recursos emocionais positivos que a pessoa sente que estavam faltando no momento dos acontecimentos (por exemplo, autoconfiança, compreensão, clareza, calma, pensamento funcional). De forma virtual é dada a oportunidade à pessoa  (cliente) para reviver de forma imaginada e poder interpretar novamente os comportamentos dos indivíduos envolvidos no evento.

A pessoa é suportada para fazer alterações de significado no evento, para torná-lo como quer que seja, com o benefício dos recursos escolhidos. Outros passos são incluídos no processo, dependendo da natureza da memória problemática passada e necessidades específicas e objectivos da pessoa.

Na minha experiência, esta abordagem é muito eficaz. É, desta forma possível diminuir ou eliminar a dor emocional associada aos eventos traumáticos ou angustiantes do passado. Não há necessidade das pessoas sofrerem anos a fio, existe a possibilidade de evitar que as  suas memórias incapacitantes do passado continuem a infligir impacto negativo sobre a vida no presente.

Esta abordagem psicológica pode ser usada para eliminar a dor e o sofrimento associado a eventos passados, como o bullying, abuso,  perdas e fobias.

Alguns esclarecimentos

O que é o trauma psicológico? Um trauma é uma resposta emocional negativa, forte e persistente, a um evento passado, ou lembrança do mesmo.

Características do trauma:

Um trauma não é uma experiência em si mesmo. É uma resposta emocional a uma experiência. Se a resposta emocional é positiva, a experiência não é traumática, não importa o quão angustiante possam ter sido os detalhes sensoriais (Pense em todas as pessoas que pagam dinheiro para ter experiências perigosas e assustadores, como o rafting!)

Os traumas são aprendidas através de repetição e exagero de estímulos sensoriais. Imediatamente após uma experiência negativa, uma pessoa geralmente não fica traumatizada. É por isso que o tratamento que recebe imediatamente após a experiência pode mudar o seu resultado.

Os traumas variam de muito menor para maior, e de uma situação contextualizada para a generalização. Por exemplo, uma pessoa pode ter uma fobia de besouros, mas não a outros insetos  ou aranhas.

As causas de trauma psicológico variam. Eventos problemáticos óbvios que acontecem com adultos provocam respostas traumáticas conhecidas como, Transtorno de Stress Pós-Traumático. Outros traumas podem acontecer quando uma pessoa é muito jovem.

Muitas vezes reprimidos ou esquecidos, esses traumas podem causar problemas difusos com nenhuma causa óbvia. E algumas pessoas ficam gravemente traumatizadas por um grande número de eventos aparentemente pequenos e insignificantes.

A. Um trauma é uma associação entre um evento sensorial e metainformação (são dados sobre outros dados) sobre esse evento. A metainformação inclui o significado do evento, e as respostas emocionais da pessoa. O cérebro armazena memórias sensoriais e significados separadamente.

Esta separação permite que a pessoa altere a interpretação de um evento passado, dar-lhe um novo significado, e gerar uma nova resposta emocional. A remoção da metainformação muda a memória traumática para uma memória de um evento sensorial, sem o trauma.

B. Um trauma é uma sequência aprendida, que acaba associando a pessoa a uma forte emoção negativa. Geralmente a sequência é extremamente comprimida, de modo que o evento para além do seu significado associado e consequentes emoções são reproduzidos quase instantaneamente.

Isto torna a experiência intensa e difícil para a pessoa, dificultando o desapego, alterar o gatilho que inicia a sequência, ou alterar a sequência, e as mudanças de resultado.

A melhoria é possível

Um trauma ou um acontecimento perturbador e condicionador de vida, pode ter vários graus de incómodo e não tem necessariamente de ser considerado um estigma ou uma catalogação pejorativa para a pessoa.

Certamente terá sempre um determinado impacto na vida da pessoa, mas é  possível trabalhar num novo reenquadramento no sentido de que esse acontecimento e as memórias associadas deixem de perturbar e condicionar a vida de quem sofre. A melhoria é possível com o devido enquadramento.

Abraço,

Miguel Lucas

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Comentários
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Henrique Gil

Isso se aplica muito bem aos iniciados em Reiki. Logo no início somos orientados a reinterpretar fatos passados para, assim, limparmos nossos corações de mágoas.

att

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Miguel Lucas

Olá Henrique, obrigado pelo comentário.

Agradeço a sua partilha. A aceitação de alguns acontecimentos e a sua reinterpretação ajuda-nos em muito a libertar-nos.

Abraço

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Garota de Várias Faces

Olhe, eu acho que a gente muda o pensamento do passado, quando a gente faz o presente ser diferente desse passado, poxa, por experiência própria, eu sofri traumas no passado porque era feia, os colegas de escola caçoavam de mim, e eu me sentia inferior até eu mudar essa realidade ou o próprio destino ter mudado, hoje eu reencontrei um rapaz no facebook que eu estudei há muitos anos e nunca mais tinha reencontrado e ele comentou numa foto minha: – Poxa, vocÊ tá uma gata, fiu fiu!
E eu pensei: – Aaah, agora eu tô, né… ha! ha!
Outros traumas eu tive de rejeição amorosa, coisas horríveis que vivi e ouvi, e tudo isso porque eu não tinha amor próprio naquela época…
Enfim, eu acho que o passado incomoda quando ele ainda faz parte do presente, quando ele se torna só passado vai ser apenas uma lembrança e não um incômodo.

http://www.diariodagarotadevariasfaces.blogspot.com
visita o meu blog? me dá esse prazer 🙂

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Sofia

Post interessante. O vídeo está bastante esclarecedor. Por vezes, torna-se bastante difícil libertarmo-nos de situações passadas… Quando se fala de “fantasmas do passado” acho que essa metáfora faz bastante sentido porque por vezes o que nos perturba são coisas difusas, sem forma definida, que sentimos a pairar sobre nós, mas que desconhecemos o rosto. Falo de situações que possivelmente nem recordamos, que ficaram registadas na nossa memória emocional mas não na nossa memória dos factos. Situações que possivelmente ocorreram numa idade muito precoce. O ser humano é tão complexo. E a única ferramenta que temos para tentar entendê-lo é a nossa mente. Certamente existem coisas que a nossa mente não atinge. Acho que é aí que se situa o nível espiritual. E se calhar para “curar” o ser humano a mente, por si só, é impotente.

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Miguel Lucas

Olá Sofia, obrigado pelo comentário

Agradeço imenso a sua reflexão. É importante percebermos que nós enquanto seres humanos somos muito mais que o nosso cérebro, que a nossa mente, que os nossos acontecimentos e história, que os nossos sentimentos e mesmo comportamentos: nós somos aquele onde tudo isso acontece e que vivenciamos tudo isso. Desta forma acima da mente, estamos nós, está a nossa consciência, o nosso eu que sabe que existimos, que sabe que vivemos e nos aconteceram determinadas coisas. Temos a capacidade de mudarmos, de percebermos como funcionamos e regularmo-nos de acordo com aquilo que pretendemos melhorar, de acordo com a experiência que gostámos ou não.

Se considerarmos que espirito, é o fenómeno que acontece na relação que estabelecemos quando comunicamos connosco, com os outros e com o mundo, percebemos que o nível espiritual, situa-se na relação com as coisas e não em nós mesmo ou nas coisas em si 🙂

Abraço

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Carlos Moraes

Olá, sou estudante do 4 ano de psicologia, e gostaria de indicações de livros a respeito da prática da terapia cognitivo-comportamental, pois existem muitos livros por aí e não são todos que se aproveitam, então ficarei grato por indicar alguns livro que doram útei para vocês. Obrigado.

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manuela

O post e o vídeo estão muito esclarecedores. Obrigada

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Miguel

Olá Dr. Miguel Lucas!Gostava k m enviasse para o mail o kontakto dos seus serviços pois preciso da sua ajuda..

Obrigado,

Atenciosamente,

Miguel

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Anonymous

Miguel, boa tarde!

Tenho lido seus artigos e todos têm me ajudado. Tenho me sentido agoniado e frustrado na área de relacionamentos. Já tentei os diversos exercícios propostos por artigos, tentei me recordar de algum tipo de trauma que pudesse ter correlação com o que sinto, mas simplesmente é como se fosse um "Firewall de computador", que bloqueia minhas atitudes. Não consigo me relacionar. Com 19 anos, tive poucas experiências amorosas e sexuais, nenhum namoro. Todas as mulheres com quem tenho a oportunidade de construir um relacionamento, me passam confiança, me estimulam a tomar qualquer tipo de iniciativa e atitude, mas eu não consigo ter tal atitude ou dar o primeiro passo. Por mais que sinta-me como se tivesse palavras engasgadas, que eu gostaria de proferir naquele momento, um gesto ou carinho para com essa pessoa. Me relaciono normal com amigos e familiares, mas não consigo declarar meus sentimentos à uma mulher. Isso me gera frustração, pois sabendo que não terei coragem de me aproximar, crio prazos para finalizar relações de amizade, tenho medo de me apaixonar. Gosto de uma mulher e passamos muito tempo juntos. Ela sabe que eu gosto dela, mas acredito que esteja esperando por uma atitude. Eu me esforço mas não consigo. Tenho medos que não consigo identificar. Encarecidamente gostaria que nem que em apenas uma linha de comentário, me oferecesse uma ajuda, uma palavra, um artigo. Não quero enraizar o pensamento medíocre de que nasci para ganhar dinheiro e não para amar.

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Isa Cris

Como superar o trauma de uma injustiça de um abandono de um casamento de 21 anos?
No namoro,ele me fez acreditar que minha vida ,missao,ministerio,funçao ,seja la o que for,seria a de esposa, mae e dona de casa,e desde que me casei dediquei minha vida a ele,a casa e a criaçao dos filhos.
Os filhos cresceram,foram embora,se independizaram e de repente ele me abandonou e foi embora com outra..me deixou com uma mao na frente e outra atras e como nuca tive uma profissao,fiquei sem chao,sozinha e com dificuldade para superar este trauma..um ano e meio se passaram e ainda nao conseguir superar o luto..ja fiz terapia,tratamento e nao consigo nem sequer sair de casa e nem tenho dinheiro para pagar um tratamento.
Com posso superar isso..por onde devo começar pra sair deste passado que me prende?
Não consigo mais viver assim.
Por favor se puder me responda via email
Excelente seus posts.
Obrigado!
Isa

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Leny

Quando você é vitima de assédio moral, em que alguém queira te desqualificar ou distorcer sua imagem perante os outros por meio de mentiras, minando a confiança das pessoas em relação a você, também pode ser uma experiência traumática. Principalmente se você não consegue superar muito bem essa experiência negativa e fica ruminando os fatos. Estou correta?

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Zélia Consuelo

É um artigo de alto quilate, fonte de relevante ajuda, parabéns!

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